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Quinta-Feira, 11 de Julho de 2013

Vida de Nelson Triunfo vira filme e livro

Ginásio do Palmeiras, baile do Chic Show, 1977. Na multidão, um homem de 1,90 m e cabelo "black power" é erguido por outros dançarinos, após abrir a roda com seus passos amplos. "Foi viagem dos caras, de querer dizer ao James Brown, 'nós temos soul'. No ombro dos caras, eu abri as asas."  Do palco, foi saudado pelo próprio James Brown, que depois o encontrou nos camarins -- e perguntou como dançava com aquele cabelo.

  A cena virou emblemática da cultura negra dos anos 70 em São Paulo, pela reunião de Brown com um brasileiro que já fazia história nas ruas e nos bailes: Nelson Triunfo. Hoje com 58 anos, morando na Penha, o dançarino cruzou cinco décadas como um dos elos entre seguidos movimentos da arte negra.
 
Chama-se Triunfo porque foi a cidade pernambucana onde nasceu e deu os primeiros passos, juntando frevo com o que via no cinema musical, em Sammy Davis Jr. Nelsão, como o chamam, virou tema de documentário, "Triunfo", e de biografia, "Do Sertão ao Hip-Hop", ambos em fase final de produção. "A minha história não é minha: é de momentos do Brasil", comenta ele sobre os dois projetos, realizados, respectivamente, pelo diretor Hernani Ramos e pelo jornalista Gilberto Yoshinaga.  

Ele se vê como um representante. "Muitos morreram e não foram reconhecidos, gente fortíssima como o Miguel de Deus, que formou uma das primeiras bandas negras de São Paulo." O filme traz depoimentos sobre o dançarino de artistas como Os Gêmeos, que o conheceram nos bailes e contam, rindo: "A gente lembra de ele entrar na roda e todo mundo esperar tirar a touca para o cabelo ficar grande".  

A roda é seu ambiente natural. Mas a fama cresceu a ponto de dificultar a presença, antes constante, nas madrugadas da cidade: agora chegam a invadir as rodas para abraçá-lo, tirar fotos. O reconhecimento também cresceu, nas artes. Em 2007, estava em Berlim como elemento central na encenação de Frank Castorf de "Na Selva das Cidades", de Brecht. Em entrevista, ele se estende mais sobre Nova York, para onde foi levado pela produção do filme. Lá, conheceu o teatro Apollo, no Harlem. "Tive que parar e respirar, quando pisei na calçada. Veio tudo à cabeça, os shows do Michael [Jackson], da Motown. Para mim, aquilo era um templo. A minha Meca."  

Mas Nelson Triunfo insiste que a música negra, para ele, não se restringe aos EUA do Harlem ou do Bronx. Na sua visão, do jazz de Pixinguinha ao CD mais recente do rapper Eddy Rock, também o Brasil tem a sua linhagem de "black music".
 
O filme não é linear, mas registra momentos do dançarino, como quando viveu na cidade-satélite de Ceilândia e começou a chamar a atenção nos bailes do Motonáutica. "Vai se desenhando aos poucos, mas a maioria se passa em São Paulo. Foi a base, onde cheguei e pus a estaca." Dos anos 80 em diante, ele se tornaria referência também da cultura hip-hop, dançando na rua 24 de Maio e na estação São Bento, enquanto Os Racionais faziam suas primeiras apresentações. "Era para o filme ter dez minutos", diz Hernani Ramos. "Mas, quando a gente conheceu o Nelson, viu que ele era muito maior."

POR: NELSON DE SÁ
Folha de São Paulo